CAMINHO DAS PEDRAS — HIGIENÓPOLIS

Navegar é preciso, já disse o poeta.
Mas caminhar também é preciso, principalmente para quem, como eu, leva uma vida sedentária.
Já faz algum tempo, inventei meu itinerário e, em vez de ir até o Ibirapuera, comecei a caminhar pelas ruas de Higienópolis, que, além de arborizadas, também são fáceis de atravessar. O passo só é alterado quando se tropeça em alguma pedra esquecida no meio da calçada ou se tenta desviar de restos orgânicos deixados por algum residente mal-educado.
De repente, percebi que os buracos, as pedras jogadas de qualquer jeito, a calçada trincada ou a textura do cimento sugeriam obras de arte, e comecei a me perguntar:
Isso tudo era o resultado da ação do quê? De quem? Ou simplesmente era falta de ação?
Sob o olhar inquisidor de algumas pessoas, fazia minhas anotações e registros, admirando-as toda vez que passava por elas, descobrindo outras e outras imagens a cada vez que caminhava.
Creio que a maioria de nós não presta atenção nessas imagens, pois se preocupa apenas em contornar os “obstáculos”, para não sofrer um acidente — o que é justo, é claro.
Mas é maravilhoso parar e olhar atentamente essas texturas, esses caminhos abertos pelas rachaduras do solo, essas depressões que formam lagos com paredões rochosos ou essas pedras amontoadas que fazem pensar nas cordilheiras que surgem do encontro de duas placas tectônicas.

Eduardo Iglesias




Fotos: Pedro Sgarbi, Tratamento de Imagens: Patricia Motta

 

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